26 abril 2010

Caju

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Foto de Marta Jorge

Apesar de, durante as nossas viagens a Varela e a Cacheu, termos constatado com espanto que os cajueiros ainda estavam em flor, a campanha do caju foi aberta oficialmente com a pompa e circunstância habituais. O principal recurso do país assim o justificava.

A Guiné-Bissau vive do caju, para além da ajuda internacional. Pouco a pouco, a área de cajueiro foi aumentando e a paisagem tornou-se mais monótona já que, dada a planura do país, os nossos olhos apenas vêem o mesmo verde, na época da colheita salpicado de amarelo ou encarnado.

Na maior parte dos casos são árvores baixas, não sei se por serem jovens ou por serem de espécie diferente dos cajueiros enormes que conheci no norte de Moçambique. Em 1988, foi-me dito com grande desgosto pelo nosso motorista (e eu sabia o nome dele ...) que os cajueiros tinham sido atacados por uma doença, desconhecia-se o meio de os salvar. O que terá acontecido a essas árvores enormes? terão sobrevivido à guerra civil?

Bissau está pois cheia de comerciantes estrangeiros, maioritariamente indianos, de frutos exibidos nos passeios e de bidons, deve-se dizer. Bidons aos molhos, transportados de um lado para o outro, vazios, logo cheios e de novo vazios, contendo a alegria e a desgraça da época - vinho de caju, muito barato, demasiado fácil de fazer por a fermentação ser tão rápida naquele clima. Vende-se por todo o lado, mesmo à porta dos liceus, e o seu cheiro doce e picante impregna tudo e todos.

Há locais onde se aglomeram as vendedeiras (mais uma vez, as mulheres ...) e aí o trânsito complica-se porque o interesse é grande. A cidade agita-se e tomam-se precauções para que nada aconteça.

É uma animação preocupante.

22 abril 2010

Essenciais - o alguidar

Quando a vida se restringe ao essencial, há poucas coisas à nossa volta e elas ganham uma importância acrescida. Na tabanka as casas estão despojadas, sem móveis, com raros objectos de adorno. Se exceptuarmos os adereços com significado religioso todos os outros objectos são utilitários, ligados à confecção da refeição, à higiene pessoal, à recolha e transporte da água, à lavagem da roupa e pouco mais. Porque de pouco mais é feita a vida.

O alguidar é talvez o objecto mais indispensável de todos. É usado ao fim do dia para o banho de caneco, um ritual a que se dá a maior importância numa terra sem água nas habitações. Os europeus mais tarde ou mais cedo acabam por ter essa experiência que certamente já deu que pensar a muitos deles. Por mim, espantei-me com a pequena quantidade de água necessária para um banho e passei a ter ainda menos condescendência para quem toma duches de meia hora como se o dia que começa só pudesse ser enfrentado com os miolos encharcados. Às vezes só parece que o vão conseguir.

Os de plástico invadiram as cidades e o interior, geralmente reciclados, com cores estonteantes que tanto contribuem para o choque de que falei aqui. Mas há ainda por todo o lado os belos alguidares em metal, batidos e soldados como manda a tradição.

19 abril 2010

Aquele abraço

À Sofia, ao Sérgio, à Ana Cláudia, ao Osvaldo, à Joana, ao Filipe e ao Manel

À Mónica e ao Henrique

À Isabel e ao Henrique (Pai)

Pela cama
Pela mesa
Pelos risos
Pelas conversas
Pelos passeios
Pelo conforto
Pelos mimos, enfim

Aquele abraço!

(clicar)

16 abril 2010

Cacheu

Cacheu foi a primeira povoação criada de raíz pelos portugueses, em 1588, tendo sido a primeira capital do território, condição que justifica a sua inclusão na UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa).

Num país sem monumentos e sem um museu que guarde o seu património artístico e cultural, a fortaleza de Cacheu, recuperada há alguns anos pela UCCLA, e o Forte da Amura (Bissau) gozam de enorme protagonismo.

Ao contrário do que se passa com o Forte de Amura, difícil de visitar e de fotografar por restrições colocadas pelas Forças Armadas, a fortaleza de Cacheu é divulgada continuamente, sobretudo desde que foi reparada. Já a conhecia portanto, apesar de só ter ido a Cacheu durante a minha última estadia.

A estrada foi reparada há cerca de um ano e a viagem, com escala em Canchungo para almoçar uma cafreala e visitar o mercado de rua, foi fácil. A avenida larga e a grande rotunda com um pedestal inabitado ao centro indicam que a antiga Teixeira Pinto deve ter tido alguma importância, antes de entrar no processo de decadência hoje visível.

De repente, estamos em Cacheu, avançando em direcção ao mar, já que foi por aí que tudo começou. E de repente também estamos com a fortaleza diante dos nossos olhos. A sensação que dá é que nem precisamos de os levantar para a vermos, de tal forma ela é pequena.

Navegadores, descobridores, naus e caravelas, feitorias, comércio de escravos, todo um mundo que nos alimenta a imaginação e que nos leva a construir mentalmente um forte bem mais imponente do que aquele erguido pelo Reino de Portugal.

As estátuas que como noutras paragens foram retiradas de outros locais aguardam melhor sorte no interior do forte, encostadas à parede, e as posições insólitas dão ao conjunto um ar de Portugal dos Pequenitos desarrumado e um pouco desvairado. Apenas Diogo Gomes (ou será Nuno Tristão?) se apresenta em pose digna, heróica mesmo, olhando o mar de onde veio e para onde seguramente gostaria de voltar.

Não se pode evitar alguma lusitana decepção.

Varela (2)

Ao contrário dos resorts senegaleses logo ali, a seguir à fronteira, as praias de Varela são ainda bem africanas. Talvez todas as praias tenham um dia sido assim: continuação do campo, espaços onde a vida continua a acontecer.

Empurram-se os barcos para o mar, recolhe-se o peixe e aqui, em Varela, trata-se logo de o fumar. O peixe é só um - bagre - e segue depois para outras paragens. Disseram-me que vai mesmo para o vizinho Senegal e que se trata de negócio de mulheres.

Faltou-me confirmar.

P.S. A fotografia da fumagem do peixe é da Marta Jorge e faz parte do conjunto de que falei aqui.

15 abril 2010

Varela

Se exceptuarmos o arquipélago dos Bijagós, até há dois anos apenas acessível a poucos previligiados com tempo e dinheiro suficiente para alugar transporte privativo e a outros tantos temerários capazes de arriscar o transporte em canoa, a única praia de que se dispunha era Varela, na fronteira com o Senegal.

E no entanto, em 9 anos, apenas fui uma vez a Varela. O primeiro obstáculo era o rio Cacheu cuja travessia se fazia por um enorme jangada, quando funcionava. Sem hora marcada, a travessia de 20 minutos podia implicar várias horas de espera sob um sol abrasador e, frequentemente, não acontecia. O estado de conservação da jangada era terrível e muitas vezes a parte do país a norte do rio Cacheu ficava longas semanas isolada, até mesmo de Bissau. Quem era apanhado por esta surpresa só tinha que desistir ou dar a volta por Farim, viagem de muitas horas e muitas penas.

O segundo obstáculo era a estrada de S. Domingos para Varela, poucas dezenas de quilómetros que levavam 3 horas a percorrer, tal era o seu estado. Os buracos eram verdadeiras crateras e quem tinha um veículo como o meu só podia sonhar com os tais banhos de mar, nunca tomá-los.

Em Junho de 2009, foi finalmente inaugurada a ponte sobre o rio Cacheu. Financiamento da UE, obra da Soares da Costa. Chegada a Bissau, soube logo que o piso da estrada até Varela tinha sido substituído por terra batida o que passara a permitir um acesso normal ao Paraíso.

A diferença é enorme e alguns fins-de-semana poderão deixar de ser aqueles dias deprimentes, fechados em casa, esperando a libertação da segunda-feira.

Voltei pois a Varela em duas horas e meia. Vi o mar, tomei bons banhos. Vi militares acampados por todo o lado e ouvi também morteiros, pois Casamança é já ali.

Foi muito bom.

11 abril 2010

Litorais

Fotos de Marta Jorge

A relação da Guiné-Bissau com o mar e os rios é especial. Ao contrário dos restantes países da região, a sua costa é muito recortada e os rios abundantes pelo que o território é uma renda de água em que até algumas ilhas parecem ainda continente.

No entanto, em muito poucos locais nos sentimos à beira-mar. Em Bissau, o mar está ali mesmo mas não é bem mar. O porto não é bem porto. Entre nós e a linha de costa há uma larga banda de tarrafe que se prolonga quase sempre em bolanhas com o seu sistema de diques tentando gerir esta omnipresente área de terra encharcada.

Quanto aos rios, ao longo das margens há sempre a vegetação que mais parece um emaranhado de pernas altas com calças arregaçadas, esperando a subida das águas na maré-cheia. Onde termina o mar e começa o rio? Onde termina o rio e começa a margem? Onde começam a água doce e a salobra?

Esta área de suaves transições é o paraíso das aves e entre elas do pelicano que me parece sempre um animal extinto há milhões de anos.

É por lá também que cresce o camarão que as mulheres vão vender diariamente a Bissau.

Foto retirada daqui