16 abril 2010

Varela (2)

Ao contrário dos resorts senegaleses logo ali, a seguir à fronteira, as praias de Varela são ainda bem africanas. Talvez todas as praias tenham um dia sido assim: continuação do campo, espaços onde a vida continua a acontecer.

Empurram-se os barcos para o mar, recolhe-se o peixe e aqui, em Varela, trata-se logo de o fumar. O peixe é só um - bagre - e segue depois para outras paragens. Disseram-me que vai mesmo para o vizinho Senegal e que se trata de negócio de mulheres.

Faltou-me confirmar.

P.S. A fotografia da fumagem do peixe é da Marta Jorge e faz parte do conjunto de que falei aqui.

15 abril 2010

Varela

Se exceptuarmos o arquipélago dos Bijagós, até há dois anos apenas acessível a poucos previligiados com tempo e dinheiro suficiente para alugar transporte privativo e a outros tantos temerários capazes de arriscar o transporte em canoa, a única praia de que se dispunha era Varela, na fronteira com o Senegal.

E no entanto, em 9 anos, apenas fui uma vez a Varela. O primeiro obstáculo era o rio Cacheu cuja travessia se fazia por um enorme jangada, quando funcionava. Sem hora marcada, a travessia de 20 minutos podia implicar várias horas de espera sob um sol abrasador e, frequentemente, não acontecia. O estado de conservação da jangada era terrível e muitas vezes a parte do país a norte do rio Cacheu ficava longas semanas isolada, até mesmo de Bissau. Quem era apanhado por esta surpresa só tinha que desistir ou dar a volta por Farim, viagem de muitas horas e muitas penas.

O segundo obstáculo era a estrada de S. Domingos para Varela, poucas dezenas de quilómetros que levavam 3 horas a percorrer, tal era o seu estado. Os buracos eram verdadeiras crateras e quem tinha um veículo como o meu só podia sonhar com os tais banhos de mar, nunca tomá-los.

Em Junho de 2009, foi finalmente inaugurada a ponte sobre o rio Cacheu. Financiamento da UE, obra da Soares da Costa. Chegada a Bissau, soube logo que o piso da estrada até Varela tinha sido substituído por terra batida o que passara a permitir um acesso normal ao Paraíso.

A diferença é enorme e alguns fins-de-semana poderão deixar de ser aqueles dias deprimentes, fechados em casa, esperando a libertação da segunda-feira.

Voltei pois a Varela em duas horas e meia. Vi o mar, tomei bons banhos. Vi militares acampados por todo o lado e ouvi também morteiros, pois Casamança é já ali.

Foi muito bom.

11 abril 2010

Litorais

Fotos de Marta Jorge

A relação da Guiné-Bissau com o mar e os rios é especial. Ao contrário dos restantes países da região, a sua costa é muito recortada e os rios abundantes pelo que o território é uma renda de água em que até algumas ilhas parecem ainda continente.

No entanto, em muito poucos locais nos sentimos à beira-mar. Em Bissau, o mar está ali mesmo mas não é bem mar. O porto não é bem porto. Entre nós e a linha de costa há uma larga banda de tarrafe que se prolonga quase sempre em bolanhas com o seu sistema de diques tentando gerir esta omnipresente área de terra encharcada.

Quanto aos rios, ao longo das margens há sempre a vegetação que mais parece um emaranhado de pernas altas com calças arregaçadas, esperando a subida das águas na maré-cheia. Onde termina o mar e começa o rio? Onde termina o rio e começa a margem? Onde começam a água doce e a salobra?

Esta área de suaves transições é o paraíso das aves e entre elas do pelicano que me parece sempre um animal extinto há milhões de anos.

É por lá também que cresce o camarão que as mulheres vão vender diariamente a Bissau.

Foto retirada daqui

03 abril 2010

Mães e filhos

Dos pais, reza pouco a história. São as mães que os alimentam, consolam e carregam, claro. Durante vários anos. Quando um outro filho nasce, as costas passam a ser muitas vezes as de uma irmã mais velha, muito pouco mais velha. Não admira portanto que a taxa de abandono escolar das raparigas seja muito superior à dos rapazes.

Quando se chega ao país é uma das realidades que salta à vista - as crianças até aos 2 anos (por vezes mais)são carregadas às costas ... sempre.

Claro que penso há muito fazer um post sobre os slings africanos, muito diferentes destes de que tanto se falou aqui. E basta ver as mulheres guineenses a trabalhar, durante todo o dia, carregando o filho para se duvidar das vantagens de tal babywearing. É verdade que não se ouve nunca uma criança chorar. Ouvi uma vez, com estranheza, uma pequenina vizinha de gabinete mas vim a saber que estava muito doente. A regra é os bebés estarem envolvidos pelo pano até ao pescoço sem qualquer hipótese de movimento, durante todo o dia. Quanto aos mais velhos, é-lhes dada a benece de poderem mexer os braços.

É calmante estar assim em contacto com o corpo da mãe? Claro que é, mas é também um profundo treino de passividade e de não iniciativa que me parece ter resultados desastrosos na idade adulta. A estimulação precoce é muito reduzida e sabemos bem a sua importância, nós que tanto nos orgulhamos dos nossos pequenos prodígios.

Uma coisa é certa: não há nada mais belo e enternecedor.

P.S. Ao procurar as fotografias para este post apercebi-me que tenho muito poucas e quase todas de má qualidade o que é estranho uma vez que o tema a fotografar nos rodeia permanentemente. A tentação de apanhar mãe e bebé dificulta as coisas mas sobretudo a velocidade a que as mães se deslocam levou-me muitas vezes a correr atrás delas, em vão. Ainda não estou apta para tão difícil missão.

02 abril 2010

Marta

Fotografias de Marta Jorge

A Marta Jorge é a delegada da RTP África em Bissau há alguns anos. É aquela mulher bonita, de olhos claros, que vemos na RTP de cada vez que há problemas na Guiné-Bissau. Há um ano, fez um comentário no meu recém-nascido blog oferecendo-se para me dar fotografias enquanto eu não comprava a tão mitificada nova máquina fotográfica. Fê-lo aqui.

Fiquei sinceramente sensibilizada pois apesar de nos conhecermos (será possível não conhecer um português que viva em Bissau?),de até já termos ido num grupo aos Bijagós, nunca tínhamos conversado a sós. A oferta foi ainda mais valorizada quando fui à RTP África ver as fotos. Lindas! Gravou-me todas as que eu escolhi e eu dei meia volta com a sensação que tinha acabado de receber um presente precioso.

Parece que o achei demasiado precioso porque apenas publiquei até agora duas ou três. As outras têm continuado à espera de textos condignos.

Desde ontem tenho visto muito a Marta no pequeno écran.

Não gosto nada de ver a Marta no pequeno écran.

20 março 2010

A cor

Foto de Marta Jorge

Quando comecei a visitar Bissau partia-se de manhã, bem cedo, o que significava acordar a meio da noite, marcar táxi de véspera, pôr despertador, fechar malas antes de adormecer. Tudo procedimentos pouco compatíveis com uma improvisadora nata, originando uma angustiazinha que só desaparecia quando fechava o cinto de segurança e me entregava nas mãos da TAP. Durante umas horas iam tratar de mim e eu estava simplesmente proíbida de tratar fosse do que fosse. Sensação boa, coroada com a grande vantagem de aterrar de dia, depois de sobrevoar o deserto e por fim o verde, verde da Guiné-Bissau.

De há uns anos para cá a viagem faz-se de noite e não gosto mesmo nada daquela meia luz um pouco deprimente que me mostra os meus companheiros de viagem no seu ângulo menos favorável: cabeças que baloiçam, corpos torcidos, pés descalços. Aterragem na mais completa escuridão, sem paisagem. E depois do purgatório da espera pelas bagagens vai-se directo para a cama, sem escapadela possível.

De manhã salto para a rua e mergulho de imediato na cor. Viva, variada, intensa. É um impacto tão forte que justifica só por si a viagem. Não há visita que supere este prazer da cor que torna todos os objectos do quotidiano tão importantes e transforma todos os trajes em verdadeiros figurinos.

E venham falar-me de museus!

19 março 2010

A luta continua

Temo que o meu desejo de rechear este blog com muitos, muitos posts durante a minha visita a Bissau não venha a ser mais do que isso - um desejo. No local em que estou a residir a net funciona tão mal, mas mesmo tão mal, que é melhor considerar que não existe se quiser manter a minha saúde mental num nível aceitável. E posso-me dar por satisfeita por já não ter necessidade dela para trabalhar.

Resta-me esperar por melhores tempos tecnológicos.