21 agosto 2010

A casa (6) - os detalhes

Fotos de Francisco Nogueira

Muito poucos detalhes como se espera em casa tão pequena e tão pobre. Mais uma razão para o esforço de os conservar sempre que possível.

São eles um nicho no quarto com um desenho bizarro. Por que o terão feito assim?

Um outro na antiga cozinha e futura casa de banho; aparentemente banal, com um pequeno devaneio na parte inferior.

O nicho para o fogão, redondo de um lado.

Os ornatos de cada lado da porta de entrada e da janela. Muito simples, pregueados, um pouco art-déco. Prolongam-se na guarda da açoteia e serão preservados quando ela for elevada. Segurança das crianças a isso obriga.

A glória máxima é o tecto redondo do corredor, no enfiamento da porta de entrada e com a porta para o pátio ao fundo. Pátio que vai virar cozinha.

Como vai ser necessário isolar a cozinha da açoteia com uma porta, as escadas vão ter que ser modificadas mas as crianças já descobriram nos desenhos do projecto motivo de excitação.

A casa (5) - o quarto

Fotos de Francisco Nogueira

Da rua entra-se pela bela porta de alumínio, com vidro martelado. Conjugação dos dois materiais que mais abomino num só equipamento. Sorte a minha.

Está-se então na sala em que sobressaiem as duas portas de madeira com bandeiras, agora amarelas mas que tudo faz prever que venham a ser brancas em breve. Uma delas abre para um cubículo interior em tempos com porta para o corredor, porta essa que desapareceu juntamente com a parede a que pertencia.

O dito cubículo era chamado pomposamente de quarto e assim continuará a ser, apesar da parede para o corredor ter sido dispensada para que se possa colocar no espaço uma cama. Quarto sem cama não poderia mesmo ser ... A cama é que terá que ser mandada fazer, por incompatibilidade manifesta do espaço com as medidas standard.

Como a parede ruiu por completo durante a minha estadia em Bissau, o trabalho está adiantado.

20 agosto 2010

A casa (4) - a açoteia

Por cima há uma açoteia com um casinhoto que foi quarto. Assim se vivia há cem anos quando nasceu esta casa e assim se viveu em Portugal por muitos, muitos mais anos. Às vezes parece que já ninguém se lembra disso.

À volta da açoteia há muitas outras, mesmo ali, construindo todas juntas um puzzle de espaços mais ou menos brancos. Espaços desabitados, agora que já não se secam os figos nelas.

Pretende-se que a açoteia da casa venha a ser o seu recurso maior, durante o verão. Por vezes a imaginação voa e eu confronto-me com as imagens fotográficas bem diferentes das mentais. A açoteia não tem 50m2, tem só 25. Preciosos.

A casa (3) - os restos

Fotos de Inês Nogueira

A casa tem 100 anos. Nela viveram outras gentes, até ter ficado desabitada há uns 20 anos.

Desse passado sobraram muito poucos restos: uma máquina de costura Singer, quatro pires com florinhas, dois deles de chávenas almoçadeiras desaparecidas e, atenção ... um lustre.

Esperamos salvar a máquina, os pratos terão o seu lugar na casa renascida e, quanto ao lustre ... lixo com ele.

19 agosto 2010

A casa (2) - a entrada

Todos vão perceber por que falo em desafio e como ele é grande.

O esquema da casa é o normal da terra na era ante-apartamentos, na sua versão mais pobre: uma porta, uma janela, um pátio minúsculo ao fundo.

Entalada entre outras mais ou menos semelhantes, embora já refeitas, tem como únicas entradas de luz as da fachada e a do pátio.

Área total: 29 m2.

O estado é o que aqui deixarei registado. Capaz de desanimar qualquer um com mais juízo.

18 agosto 2010

A casa

Estas férias foram diferentes porque a partida não foi bem uma partida. Durante aqueles dias começaram as obras de ressurreição de uma casa que nos fará regressar sempre, verão e inverno. O acontecimento já foi anunciado aqui.

Este projecto enche-me os dias embora por enquanto seja só em pensamentos. Quanto às obras, estão ainda em ritmo lento.

Vai ser mais um desafio. E como eu gosto de desafios!

05 agosto 2010

Voz de animal

Naquele quarto que foi meu durante duas semanas acordei todas as madrugadas com o mesmo canto de pássaro. Nada percebo de cantos de pássaros e meti conversa com uns vizinhos para tentar saber qual seria o artista. Melro, disseram eles. Fiquei assim a saber que os melros cantavam e daquela maneira tão especial.

À chegada a Lisboa fui consultar o livro "Vozes de animais" que encontrei este inverno ao tentar organizar minimamente as estantes. Trouxe-o ao desfazer a casa de meus pais, há mais de dez anos, e sempre me intrigou por que tinha o meu pai comprado aquele livro, ele que tão pouco se interessava por animais. Quanto a mim, acho-o um livro divertido que se auto-intitula dicionário de onomatopeias. Os animais estão arrumados por ordem alfabética e para cada um há transcrições de obras literárias em que se refere a sua voz. Para melro há, por exemplo, assobiar, cacarejar, razinar, piar, rir, etc, etc. Para todos os gostos.

No meu passeio pelo Chiado, de que falei aqui, tivera de presente um melro comprado na Casa das Vellas do Loreto. No dia seguinte um melro de verdade entraria na minha vida. Mais uma coincidência, esta com direito a banda sonora.