
É lá que eu me vejo quando, ao fim de uns meses, a distância começa a pesar um pouco. Tem sido cenário familiar de quase toda a minha vida.
Comecei por passear por lá sábado à tarde, durante a minha curta adolescência. Era nessa época composto essencialmente por três ruas e terminava no largo com o seu nome. Fazia parte de um território mais vasto que dava pelo nome de Baixa.
Ir à Baixa nas tardes de sábado era nesses tempos um dos programas favoritos para o qual qualquer pretexto servia. Podia ser simplesmente comprar uns botões na Rua dos Retroseiros. Lá íamos de metro até aos Restauradores, estação terminal. Despachado o pretexto, subíamos a Rua do Carmo, na época bem mais animada do que actualmente. Na Rua Garrett imperava a Livraria Bertrand onde eu devorava com os olhos os livros expostos nas bancadas e de vez em quando comprava um Livre de Poche, relíquia adequada ao meu bolso. Era o ambiente que importava, local de escritores com cheiro próprio de grande livraria e um certo silêncio de igreja. A figura de Aquilino Ribeiro, de sobretudo e chapéu, ficou para mim ligada ao Chiado desses tempos.
Visitado o Paris em Lisboa, recheado de maravilhas a metro, descíamos a Garrett pelo passeio contrário já que para cima havia o Largo Camões que já não era Chiado mas sim antecâmara de outros lugares onde não era suposto passearmos. Virávamos então para a terceira rua cujo maior atractivo era a Pastelaria Ferrari onde por vezes aterrávamos para lanchar um batido de morango com chantilly, acompanhado por uma sandwish de carne assada, finíssima e aparada, claro está.
Quando o passeio era com a minha mãe e não com as amigas incluía entrar na padaria da Calçada do Sacramento para comprar pão que era suposto ser especial, já que a padaria fornecia a casa de Salazar, e na Casa Pereira para nos abastecermos de café a peso.
Passados 50 anos é no Chiado que penso quando me imagino em Lisboa e é por lá que passo quase todos os dias, quando chegam as férias. Também agora qualquer pretexto serve.