02 junho 2009

Acerca de museus (2)

Fotografia retirada de a ervilha cor de rosa

Vivo numa cidade que ainda chora a destruição do Museu Etnográfico Nacional durante o conflito de 1998/99. Vivo num país muito pobre onde o artesanato poderia ser um caminho para jovens desocupados mas onde não há memória.

No meu país querem transformar o Museu de Arte Popular num Museu da Língua Portuguesa. Em vez disso por que não fazer renascer o MAP no edifício que foi criado para ele e cuidar da língua portuguesa em Portugal e nos países onde ela está em perigo? Entre eles não posso deixar de destacar a Guiné-Bissau onde o português é amado por todos e falado por muito poucos.

Quanto ao Museu da Língua Portuguesa, quando houver recursos financeiros que justifiquem tal luxo, será seguramente encontrado um outro local.

Está a correr uma petição para que se salve o MAP. Poderão saber mais aqui.

Pelo Museu de Arte Popular, assinar, assinar!

29 maio 2009

"Cantinas"

Em cada escola há duas ou três, pelo menos, colocadas estrategicamente junto ao portão, quando existe, ou instaladas em pleno recreio quando o acesso é livre. Quase sempre debaixo de uma árvore.
Na Escola Salvador Allende está mesmo junto ao tal já célebre telheiro (aqui) que foi por fim inaugurado há dias (as greves não ajudaram). Neste caso o acesso não podia ser mais livre já que o recinto da escola serve de passagem à população. Na Escola Jorge Ampa o recreio serpenteia entre as barracas de quiritim e espaço não falta para que se instalem aí as "cantinas" locais.
Mas nas escolas mais centrais, o equipamento fica à porta.
Dentro ou fora, é sempre um local muito frequentado por alunos e professores. Disponibiliza um menu pouco variado: fruta que depois da época da laranja descascada é agora manga e pedaços de kuduro com recheios variados. Um dos mais apreciados é esparguete com um molho qualquer e mayonnaise. Lamento ter-vos dado esta notícia. Era escusado ... mas não resisti a partilhá-la.
A exploração do negócio é sempre assunto de mulheres e portanto de muitas crianças também.

25 maio 2009

Espelho meu (3)

A minha amiga Alice deveria ganhar um prémio de elegância tal a beleza das suas toilettes. Deixou-se fotografar hoje, no meu gabinete, e prometeu que vai passar por lá de vez em quando para eu poder rechear o meu blog. Ela sabe que eu espero há anos pela oportunidade de a fotografar.
Mas não é só ela. Passear pelas ruas e mercados é assistir a verdadeiras passagens de modelos que apetece fotografar na íntegra. As guineenses são vaidosas! Mesmo quando muito pobres elas mantêm uma postura de enorme dignidade, caprichando sempre na apresentação. Felizmente, porque isso leva-as a manter bem viva a sua auto-estima. As toilettes até aos pés, muito coloridas, incluem geralmente turbantes – verdadeiras esculturas em pano. Parece-me sempre que o Frank Gerry anda por aqui a dar uma mãozinha.
Como se tivesse adivinhado o meu post, a Maria, empregada no Bairro da Cooperação, apareceu hoje com um turbante a combinar com a sua bata de trabalho.

23 maio 2009

S.O.S.

Recebi da Embaixada um pedido de socorro, mas daqueles de que eu gosto. Um semanário de Portugal precisava de material sobre um/a jovem guineense para o próximo suplemento Júnior, dedicado à Guiné-Bissau. Mandavam o equivalente já publicado sobre um jovem de S. Tomé e Príncipe, para se ter uma ideia. Explicavam que a história da criança deveria deixar perceber as particularidades da cultura guineense. Quanto a isto, nada mais fácil. A distância entre o dia-a-dia de um jovem guineense e o de um português é imensa.
Explicavam também que, apesar da urgência do pedido, era importante que o suplemento pudesse contar com a entrevista, evitando-se assim que se atribuísse a falta dela à instabilidade do país.
Fez-se! e a imagem da Maimuna que tanto deseja um dia ir para Portugal com uma bolsa de estudo para tirar Medicina, vai andar por esse país muito proximamente, nas mãos de todos.
O material que enviei foi considerado fantástico o que não foi virtude minha. A história da Maimuna tinha vários ingredientes de sucesso: religião muçulmana, mãe de etnia diferente da do padrasto, família numerosa vivendo sob o mesmo tecto, irmãos de pais diferentes, alimentação bem guineense, papel importante nas tarefas domésticas, duas línguas maternas nacionais e aprendizagem do português na escola... Além disto fiz questão que fosse uma rapariga.
Resta agora saber se as fotografias têm a definição necessária. Mais uma vez tropeço no problema das fotografias. A primeira coisa que vou fazer em Lisboa vai ser comprar uma máquina e juro que, pela primeira vez, vou ler um manual de instruções com todo o cuidado. Vou estudá-lo!
O que não se faz por um blog?!
Na fotografia deste post a Maimuna tem, como fundo, salas de aula em quiritim e na árvore pode-se ver pendurada uma jante que nas escolas guineenses funciona como sino para marcar o início e o fim de cada aula.

20 maio 2009

Pão nosso

Encontra-se em todo o lado, a toda a hora, em bacias, rente ao chão, na beira do passeio. Os inconvenientes são aqueles que facilmente se imagina.
Lembro-me sempre de na minha primeira ida ao estrangeiro, em 1958, os meus pais ficarem escandalizadíssimos pela maneira como em França o pão era tratado. Debaixo do braço, atado nas traseiras das bicicletas, os cacetes com um sabor e um cheiro deliciosos (ainda me lembro do cheiro!) eram transportados sem aquele saco branco, passado a ferro, que na época se usava em Portugal.
Pois eis-me aqui a comer outros cacetes, de formato bem semelhante e sujeitos a agressões mais violentas. Mas o pão é óptimo quando comparado com o que se vende nas padarias em Lisboa. Muito barato, é a par do arroz, uma das bases da alimentação dos guineenses.
Apesar do formato único, há-o de duas qualidades: o kuduro fabricado em fornos a lenha domésticos e o fino, feito à máquina em fábricas. A diferença é enorme. O kuduro, mais denso, é o preferido dos portugueses para grande espanto dos locais que consideram o pão fino, por ser mais caro, o adequado a bolsas mais fornecidas.

19 maio 2009

Espelho meu (2)

Como se pode ver pelas fotografias as guineenses capricham em tudo o que toca a cabelos. Os produtos abundam para alimentar, esticar, fortalecer. E claro, acrescentar. As extenções são muitas, desde as de nylon às de cabelo verdadeiro, permitindo uma variedade imensa de penteados a quem, à partida, não está muito contente com o seu cabelo (o sonho passa por ter cabelos compridos, lisos e brilhantes).
Todas fazem penteados a todas, operação que pode durar algumas horas e por vezes alguns dias. Neste caso o processo passa-se em etapas porque a vida continua à volta e sempre é preciso fazer mais qualquer coisa, mesmo que toda a motivação e energia estejam prioritariamente dirigidas para aquele assunto.
Depois de tanto investimento não pude deixar de perguntar, perante o sorriso maravilhado da própria:
Lindo, Fatumata! ... e quanto tempo vai durar?
Três dias.
Só, Fatumata? tanto trabalho para tão poucos dias?
Não lhe disse que, quanto a mim, tudo o que fosse menos de um mês não justificaria o esforço. Não lhe disse porque sei bem o valor de cinco minutos de perfeição.

Chuva

Fotografia de Sofia Fernandes
Depois de pontuar as conversas de há uns tempos para cá, chegou ontem a Bissau. Diz a tradição que a época das chuvas começa a 15 de Maio o que não a impede de em muitos anos se atrasar, por vezes mais de um mês. Mas este ano todos diziam que a chuva ia chegar cedo e ela cumpriu. Depois de uns dias de calor fortíssimo, acompanhado por uma humidade que impregna tudo e todos, ontem amanheceu molhado. Ainda não foi uma chuvada, daquelas que nos cola às vidraças, maravilhados. Foi simplesmente chuva.
Felizmente os preparativos para tal chegada vinham-se fazendo. O colmo ("palha de casa") foi cortado e atado em molhos dourados que se viam ao longo das estradas, esperando o transporte, e as coberturas dos telhados foram com ele reparadas e reforçadas. Noutros, foi a chapa de zinco remendada.
Segundo as possibilidades de cada um, o trabalho foi feito. E, vá-se lá saber porquê, ontem havia boa disposição no ar. Algo tinha acontecido como previsto, o que por estes lados tem um sabor muito especial.