Nascida e criada em Lisboa, vivi em Bissau. Gosto dessa terra onde me sinto em casa. Vou tentar mostrar porquê, aos poucos, para que conste.
03 dezembro 2010
30 novembro 2010
A casa (20) - o ritmo
O ritmo a que avança a obra me mata. O bom do Sr. Francisco apresenta algumas razões de peso para trabalhar um dia sim, cinco dias não. Uma delas foi a partida para férias repentinas na Bulgária de três dos seus homens. Impossível não pensar na partida do senegalês para Dakar a meio da construção do que foi a minha coroa de glória em Bissau - o telheiro da Escola Salvador Allende (aqui). Tenho que me contentar com a ideia de que desta vez o responsável ficou.
Claro que há também outras obras que pelos vistos têm prioridade sobre os meus 29m2 e para além disso o Sr. Francisco é dirigente da Associação dos Apicultores do Algarve e proprietário rural. Muita reunião, muito mel, muita azeitona para apanhar.
Quando uso o argumento do General Inverno cujas tropas se aproximam a grande velocidade ele responde-me que por aquelas bandas não há chuva, não há vento. Segundo ele, até parece que estamos a entrar na época seca, como na Guiné-Bissau.
Essenciais - muito arroz
A 3ª e 4ª fotos são da Marta Jorge
Mas no meio da mercadoria aos bocadinhos de que falei há dias aqui, há a grande excepção - o arroz. É desejavelmente comprado em sacas de 25 ou 50kg pois as famílias são grandes e ... quase só se come arroz. Para quando não há meios lá está o caneco para medida.
Nas nossas Oficinas de Língua Portuguesa o arroz acabou por ter um lugar especial que nos empolgava a todos. As Oficinas contavam com trabalho diário totalmente voluntário de jovens que viam aí uma oportunidade de aprenderem um pouco de tudo com os professores portugueses - informática, como catalogar os livros, como prestar apoio aos leitores, como construir o placard e muito mais. Mas sobretudo permitia-lhes tornarem-se pouco a pouco senhores daqueles oásis que eram as salas das Oficinas e simultaneamente aperfeiçoarem o português, no convívio diário com os professores. Estes tornaram-se modelos que todos os colaboradores queriam copiar.
No Natal e no fim do ano lectivoe, sempre que os meios o permitiam, passámos a oferecer um presente que mostrava como considerávamos importante a sua ajuda. Invariavelmente perguntávamos se queriam arroz ou dinheiro e a resposta era sempre a mesma: arroz. Explicavam-nos que era muito importante para eles chegar a casa e oferecerem-no à família. Garantirem a alimentação de todos durante uns dias era para aqueles jovens um prazer que lhes conferia estatuto de adulto responsável Outros os alimentavam durante o resto dos dias e havia que participar num assunto que é de todos - a subsistência familiar.
Os professores do projecto passaram assim a tratar da compra, transporte e distribuição de perto de 2,5 toneladas de arroz. Ao melhor preço, nas melhores condições.
Muito aprendemos naqueles anos!
29 novembro 2010
Ainda a D. Berta
Já apresentei a D. Berta e voltei a falar dela aqui a propósito de um jantar recente na Associação de Cabo Verde.
Em 2007, no Boletim nº 5 do projecto que me levou a viver em Bissau e que portanto está na origem deste blog, a Vanda Medeiros, professora do projecto, fez uma entrevista à D. Berta. Acho-a interessantíssima e tentei mostrá-la aqui. Surgiram dificuldades relacionadas com o roubo de um portátil mas agora vejo que ela está acessível aqui.
Aconselho a leitura pois compreenderão por que razão a D. Berta é uma pessoa tão especial.
27 novembro 2010
Essenciais - muito pouco
Quando visitei pela primeira vez um mercado guineense saltou-me à vista a pouca quantidade de mercadoria, especialmente no sector dos frescos. Pouca mas exposta de uma forma bem curiosa para olhos habituados à fartura. Os legumes são arrumados em montinhos com meia dúzia de exemplares cada, o que dá às bancas um aspecto divertido como se de um tabuleiro de um jogo infantil se tratasse. As carências ficam bem patentes.
Depois começamos a perceber que a pouca quantidade, a pequena dimensão impera quase sempre, numa estratégia de sobrevivência com provas dadas. Tudo se compra em ponto pequeno e os saquinhos de que falei aqui estão lá para isso. Os recursos são escassos e a reserva de mercadoria nula pelo que se compra à medida das necessidades diárias e só quando se pode.
Por cá durante a minha vida de consumidora vi as embalaggens crescerem até se tornarem difíceis de arrumar nas nossas casas, os produtos e marcas diversificarem-se e as bagageiras dos automóveis crescerem na proporção. Fazer as compras domésticas passou a ser trabalho especializado.
Há anos constatei, escandalizada, que já não era possível recarregar as embalagens de detergentes talvez porque só eu o fazia. Dava muito trabalho, não valia a pena e os sprays em plástico, embalagens sofisticadas, passaram a voar displicentemente para o lixo. Não se estava mesmo a prrecisar de uma crise? Talvez seja altura de aprendermos alguma coisa com as mulheres da Guiné-Bissau.
14 novembro 2010
Essenciais - os oleados
Oleados = sacos de plástico
Onde serão fabricados, de todos os tamanhos, com múltiplos usos? Os de tamanho normal são pretos com o mapa de África e penso que não são exclusivos do país. Há 10 anos eram sempre pagos pelo cliente e a cidade estava cheia de crianças a vendê-los, mas ultimamente já eram oferecidos o que não parece ser uma boa ideia, como se verificou por cá.
Mas aos nossos olhos os que mais surpreendem são os tamanhos mini e super-mini, transparentes, em que é vendida a água e o sumo de cabaceira, este muitas vezes congelado. São atados e depois cortados com os dentes pelo cliente. Embalagem prática e barata. Como a cerveja é bebida pela garrafa e os refrigerantes pela lata, o copo torna-se um objecto nada essencial.Tudo estaria bem se acabasse bem. Na verdade os saquinhos terminam os seus dias no chão, sujos de terra, eternos. Verdadeira praga. Felizmente não há vento, senão estariam a encher árvores e arbustos como acontece em Cabo Verde, num cenário de fim do mundo.
05 novembro 2010
A casa (19) - a fogueira
Design de Dirk Wynants
Claro que eu gostava de ter na casa tudo, mas mesmo tudo aquilo que nunca tive nem terei em Lisboa: a luz do dia a entrar por uma janela da casa de banho, um quintal com um limoeiro, uma buganvília rosa fúchia a espreitar pela porta da cozinha.
Mas mais que tudo, eu gostava de ter uma lareira. Bom, já me contentava com uma salamandra. Não vai poder ser pois furar o chão da açoteia colocaria problemas de isolamento e problemas só quero os que não se prevêem.
Portanto, encontrei esta solução que fará a minha felicidade em dias sem chuva. Terei é que prescindir do cavalo, dada a largura da escada.