20 agosto 2010

A casa (4) - a açoteia

Por cima há uma açoteia com um casinhoto que foi quarto. Assim se vivia há cem anos quando nasceu esta casa e assim se viveu em Portugal por muitos, muitos mais anos. Às vezes parece que já ninguém se lembra disso.

À volta da açoteia há muitas outras, mesmo ali, construindo todas juntas um puzzle de espaços mais ou menos brancos. Espaços desabitados, agora que já não se secam os figos nelas.

Pretende-se que a açoteia da casa venha a ser o seu recurso maior, durante o verão. Por vezes a imaginação voa e eu confronto-me com as imagens fotográficas bem diferentes das mentais. A açoteia não tem 50m2, tem só 25. Preciosos.

A casa (3) - os restos

Fotos de Inês Nogueira

A casa tem 100 anos. Nela viveram outras gentes, até ter ficado desabitada há uns 20 anos.

Desse passado sobraram muito poucos restos: uma máquina de costura Singer, quatro pires com florinhas, dois deles de chávenas almoçadeiras desaparecidas e, atenção ... um lustre.

Esperamos salvar a máquina, os pratos terão o seu lugar na casa renascida e, quanto ao lustre ... lixo com ele.

19 agosto 2010

A casa (2) - a entrada

Todos vão perceber por que falo em desafio e como ele é grande.

O esquema da casa é o normal da terra na era ante-apartamentos, na sua versão mais pobre: uma porta, uma janela, um pátio minúsculo ao fundo.

Entalada entre outras mais ou menos semelhantes, embora já refeitas, tem como únicas entradas de luz as da fachada e a do pátio.

Área total: 29 m2.

O estado é o que aqui deixarei registado. Capaz de desanimar qualquer um com mais juízo.

18 agosto 2010

A casa

Estas férias foram diferentes porque a partida não foi bem uma partida. Durante aqueles dias começaram as obras de ressurreição de uma casa que nos fará regressar sempre, verão e inverno. O acontecimento já foi anunciado aqui.

Este projecto enche-me os dias embora por enquanto seja só em pensamentos. Quanto às obras, estão ainda em ritmo lento.

Vai ser mais um desafio. E como eu gosto de desafios!

05 agosto 2010

Voz de animal

Naquele quarto que foi meu durante duas semanas acordei todas as madrugadas com o mesmo canto de pássaro. Nada percebo de cantos de pássaros e meti conversa com uns vizinhos para tentar saber qual seria o artista. Melro, disseram eles. Fiquei assim a saber que os melros cantavam e daquela maneira tão especial.

À chegada a Lisboa fui consultar o livro "Vozes de animais" que encontrei este inverno ao tentar organizar minimamente as estantes. Trouxe-o ao desfazer a casa de meus pais, há mais de dez anos, e sempre me intrigou por que tinha o meu pai comprado aquele livro, ele que tão pouco se interessava por animais. Quanto a mim, acho-o um livro divertido que se auto-intitula dicionário de onomatopeias. Os animais estão arrumados por ordem alfabética e para cada um há transcrições de obras literárias em que se refere a sua voz. Para melro há, por exemplo, assobiar, cacarejar, razinar, piar, rir, etc, etc. Para todos os gostos.

No meu passeio pelo Chiado, de que falei aqui, tivera de presente um melro comprado na Casa das Vellas do Loreto. No dia seguinte um melro de verdade entraria na minha vida. Mais uma coincidência, esta com direito a banda sonora.

16 julho 2010

Jeanne Moreau

Aqui fica a minha última descoberta no youtube - uma Jeanne Moreau esplendorosa a cantar o "Tourbillon de la vie". O Jules et Jim do Truffaut era um filme de culto, na época. Ou pelo menos era-o entre os meus amigos.

Boas férias para quem vai. Eu vou.

14 julho 2010

14 de Julhos

Manhã de Chiado, visita à Caza das Vellas Loreto, mesmo ao lado da Retrosaria.

Desta vez houve as fotografias tão adiadas e saltou-me á vista a data de nascimento da loja - 1789, ano da tomada da Bastilha. Instintivamente certifiquei-me do dia em que estava - 14 de Julho. Fantástica coincidência que me fez sorrir.

Tudo isto me fez de novo pensar na vantagem de ter aprendido, a seu devido tempo, a data da Revolução Francesa e tembém de mais algumas, não muitas pois tive uma professora de História que se orgulhava de nos fazer pensar e não decorar. Resta saber que tipo de pensamentos, mas isso é outra história. No entanto, algumas datas eram para ela indispensáveis e sempre lhe dei razão. Acompanharam-me sempre. servindo de marcos, ajudando a situar os factos entre si. Que aluno médio de hoje sabe a data de início da Idade Média ou do seu fim com a tomada de Constantinopla pelos turcos? E mesmo as datas de início e fim das duas guerras mundiais?

Pois sabê-las permitiu-me saborear naquele dia a agradável sensação duma feliz coincidência e não pude deixar de agradecer à memória da minha professora de História, de que recordo o nome - Irene Alice, o cabelo curto cortado a direito, a cara sardenta e um péssimo feitio que lhe garantia lugar no clube restrito das "Feras" do Liceu D. Felipa de Lencastre.

E também pensei, claro, que o primeiro dono daquela loja tão bonita, que tanto caprichou ao abri-la naquele ano, pouco devia saber do que se passava então lá tão longe, em Paris.