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É a mais famosa iguaria covilhanense, inventariada pela Maria de Lurdes Modesto nesse monumento cultural que é a "Cozinha Tradicional Portuguesa". Quando comecei a ir regularmente à Covilhã ainda se falava muito da sua estadia na terra para recolher as receitas e em casa de quem tinha comido o quê.
Apesar de se tratar de um prato que, de tão bizarro, tem na sua origem forçosamente uma história interessante, nunca ouvi falar dela pois são comidos pelos autóctones com um ar perfeitamente normal, como se de nada de estranho se tratasse.
Imaginem um pastel feito de uma massa folhada que quase nada tem a ver com a que dá por esse nome por ser muito mais grossa e nos chegar às mãos dura e quebradiça. Dobrados em meia-lua, têm dentro um pouco, muito pouco, de recheio de carne sobre o qual nada há a acrescentar. Noutros tempos vinham acompanhados por um papelinho dobrado sobre uns fios do precioso açafrão (nada tem a ver com o açafrão das Indias, claro) mas há muito que o preço astronómico do dito passou a obrigar cada um a comprá-lo por sua conta ... na farmácia!
Em casa ferve-se água com sal, um grande ramo de salsa, bastante vinagre e a dita especiaria. Ferve um bocado. Nos pratos de sopa colocam-se os pastéis (um ou dois por pessoa)e deitam-se por cima umas conchas do molho, bem fumegante, cobrindo de imediato com outro prato invertido para que inchem.
Agora que a Covilhã se transformou em cidade universitária (ouvi falar de 8000 alunos e professores), grande parte da população desconhece do que se trata (o que não é de espantar atendendo ao exotismo da receita), comendo-os portanto como pastéis folhados. Comprei alguns no mercado unicamente para tirar a fotografia pois constatei, só pelo aspecto, que não serviriam para comer. A massa era fina e jamais resistiria inteira ao caldo a ferver. Uma pergunta ao vendedor e deu para perceber de imediato que ele não era da cidade. Até desconhecia que os pastéis de molho se comem com molho!
Estava portanto verificada a justeza do comentário, muitas vezes feito pela minha sogra, segundo o qual os pastéis foram sempre comidos exclusivamente na Covilhã, sendo estranhos mesmo para as gentes dos arredores da cidade. E ela acrescentava, com manifesto orgulho: "Só os covilhanenses gostam dos pastéis de molho. Os covilhanenses e as minhas noras!". O que só prova a inteligência das noras e o sentido de humor da sogra.