15 março 2010

Chegada

2 da madrugada, aeroporto Osvaldo Vieira.

Burburinho bem menor do que o de há anos pois o avião semanal deu lugar aos poucos a três mais pequenos. Malas abertas mostrando que o autocolante da Cooperação Portuguesa faz alguma falta. Mas tudo se passa com grande calma, muitos sorrisos e ordem quase imediata para fechar.

Em fundo, relato dum jogo do Benfica com belo som de um LCD novo em folha. Luxo! Pequenas novidades que fazem sorrir.

Comentário de neta, via email: "Não haverá melhor coisa em que gastar o dinheiro?" Mas dá logo o mote ao recém-desembarcado: televisão e futebol, dois bens de alto valor nesta terra carente, carente ...

E a envolver tudo, o calor misturado com uma humidade visível a olho nu.

13 março 2010

Capulanas

O meu primeiro contacto com as capulanas aconteceu em Moçambique, no final dos anos 80. O artesanato era aí de perder a cabeça, apesar da guerra civil, e os panos entusiasmaram-me. Desde então nunca mais fiz uma mala, fosse para fim-de-semana, férias ou missão, sem meter dentro duas ou três capulanas.

São o objecto polivalente por excelência. Já foram lençóis em situações bem difíceis (lembro-me de Porto Amboim em 1990 e de Bombaim em 2000) e também toalhas e lençol de banho. No sector da decoração tapam mesas e sofás em casas de férias, para além do uso mais banal como toalhas de praia.

São leves, pouco volumosas, o ideal para meter na mala para o que der e vier. Dão-me segurança, permitindo-me sentir em casa quando a situação é menos confortável. É a última peça a meter na mala, tapando todo o recheio e a primeira a dar-me as boas vindas quando a abro num novo local. Adoro malas de viagem e para mim elas não existem sem capulanas.

Desta vez esperam-me os amigos e, à volta deles, o conhecido. As capulanas terão pois uma missão de menor responsabilidade.

12 março 2010

Quase

Foto de Sofia Fernandes

A ida aproxima-se. Passaporte novo, agora de turista, mala à mão, mails de preparação recebidos e enviados. Pela prmeira vez vou conhecer Bissau com tempo para olhar, parar, continuar a olhar. Espero que com a minha máquina fotográfica nova saiba colher e guardar as cores de que tantas saudades tenho.

E vou poder dar um pontapé fatal a este inverno que, depois de muitos outros tropicias, tão penoso tem sido para mim.

Quando voltar, espero ter uma nova primavera para me receber.

08 março 2010

Pastéis de molho

foto publicada aqui

É a mais famosa iguaria covilhanense, inventariada pela Maria de Lurdes Modesto nesse monumento cultural que é a "Cozinha Tradicional Portuguesa". Quando comecei a ir regularmente à Covilhã ainda se falava muito da sua estadia na terra para recolher as receitas e em casa de quem tinha comido o quê.

Apesar de se tratar de um prato que, de tão bizarro, tem na sua origem forçosamente uma história interessante, nunca ouvi falar dela pois são comidos pelos autóctones com um ar perfeitamente normal, como se de nada de estranho se tratasse.

Imaginem um pastel feito de uma massa folhada que quase nada tem a ver com a que dá por esse nome por ser muito mais grossa e nos chegar às mãos dura e quebradiça. Dobrados em meia-lua, têm dentro um pouco, muito pouco, de recheio de carne sobre o qual nada há a acrescentar. Noutros tempos vinham acompanhados por um papelinho dobrado sobre uns fios do precioso açafrão (nada tem a ver com o açafrão das Indias, claro) mas há muito que o preço astronómico do dito passou a obrigar cada um a comprá-lo por sua conta ... na farmácia!

Em casa ferve-se água com sal, um grande ramo de salsa, bastante vinagre e a dita especiaria. Ferve um bocado. Nos pratos de sopa colocam-se os pastéis (um ou dois por pessoa)e deitam-se por cima umas conchas do molho, bem fumegante, cobrindo de imediato com outro prato invertido para que inchem.

Agora que a Covilhã se transformou em cidade universitária (ouvi falar de 8000 alunos e professores), grande parte da população desconhece do que se trata (o que não é de espantar atendendo ao exotismo da receita), comendo-os portanto como pastéis folhados. Comprei alguns no mercado unicamente para tirar a fotografia pois constatei, só pelo aspecto, que não serviriam para comer. A massa era fina e jamais resistiria inteira ao caldo a ferver. Uma pergunta ao vendedor e deu para perceber de imediato que ele não era da cidade. Até desconhecia que os pastéis de molho se comem com molho!

Estava portanto verificada a justeza do comentário, muitas vezes feito pela minha sogra, segundo o qual os pastéis foram sempre comidos exclusivamente na Covilhã, sendo estranhos mesmo para as gentes dos arredores da cidade. E ela acrescentava, com manifesto orgulho: "Só os covilhanenses gostam dos pastéis de molho. Os covilhanenses e as minhas noras!". O que só prova a inteligência das noras e o sentido de humor da sogra.

25 fevereiro 2010

Lx - Bis -Lx

Alô, alô Bissau!

Bilhete comprado, Bissau à vista.

Até lá.

24 fevereiro 2010

Manhã

Farta de falar e ouvir falar do tempo, bastou uma réstea de sol para pensar que o terrível inverno tinha acabado. Parti para o Chiado bem cedo, direita ao Quiosque do Refresco do Largo Camões onde agora tenho um motivo de sobra para o visitar. Bica (boa, por sinal, apesar do copo de papel), empada de galinha. Desci para a Rua da Conceição que ainda trato, tal como a minha mãe fazia, por Rua dos Retroseiros, para comprar um acessório para a minha velhinha Singer e constatar mais uma vez que a variedade de fios de tricot é pouca em Portugal, apesar do renascimento dos crafts, um pouco por todo o lado.

De seguida fui visitar a Rua dos Bacalhoeiros onde a Conserveira de Lisboa se transformou em loja de culto. Lá comprei conservas de sardinha e também de anchovas, enquanto admirava pelo canto do olho uma senhora que em secretária própria se dedicava a montar as caixas de cartão e a embalar nelas as latas de peixe. A loja é pequena mas é linda, literalmente forrada de conservas, do chão ao tecto. Em frente ainda passei por uma antiga loja de cordas e outros materiais de embalagem, bem de acordo com a tradição da rua.

A caminho do almoço, comprei a Wall Paper de Março e instalei-me na Adega das Mercês onde comi as habituais pataniscas com arroz de grelos. O ambiente é simpático, sinto-me lá bem tratada desde sempre e estou grata aos donos por, apesar da crise, terem sabido conservar o ambiente e a ementa próprios dos restaurantes do Bairro Alto, onde almocei diariamente durante quase vinte anos.

Passagem pela Bertrand e visita a uma merceeria de um guineense, vizinha da Igreja de S. Domingos, onde descobri manteiga de amendoim, óleo de palma e produtos para o cabelo, como é de regra.

Claro que o sol desaparecera há muito, não fosse eu pensar que me encontrava a passear pelo mercado do Bandim.

20 fevereiro 2010

1 ano

Fotografia de Marta Jorge

Fez há dias um ano que iniciei este blog. Acabo de reler o primeiro post e lembro-me bem de como foi emocionante publicá-lo. Nem tem fotografias por ainda não saber colocá-las e ter querido acabar depressa com a fase de preparação que se eternizava, pondo-me um pouco ansiosa.

Durante seis meses ele foi muito importante pois fui-me entusiasmando com uma nova descoberta que se revelava muito mais divertida do que previra. Para além disso, preencheu-me os serões pouco animados de Bissau. Foi emocionante ver aumentar o número de visitas e sobretudo ver nascer essas relações tão especiais que são as da blogosfera. Algumas vão-se tecendo não se sabe bem porquê, enquanto que noutros casos as afinidades são por demais evidentes. E um dia surpreendemo-nos a pensar nessas pessoas como se de amigos se tratasse.

Regressada a Portugal, fui tomada por uma fase de reinstalação que me fez perder o fio à meada e me trouxe inseguranças várias. Será que a minha vidinha lisboeta justifica que se escreva sobre ela? Será que o nome do blog ainda faz sentido? Será que tudo isto interessa a alguém?

Mas continuo a gostar de me sentir parte desta rede de escrita – fotos - publicação - visitas – comentários – respostas a estes – nova escrita, etc.. Portanto, um ano depois, de novo insegura, vou mesmo, mais uma vez, partir.

Até breve e obrigada a todos os que têm insistido em me visitar, apesar de pouco haver para ser visitado.