14 março 2009

Made in

O comércio não tradicional nesta cidade é escasso e de baixa qualidade. Ir ao supermercado (mais mini que super) é, assim, ocasião para nos lembrarmos que estamos num dos países mais pobres do mundo, para onde poucos estrangeiros vêm viver. Se nem os políticos responsáveis pelos caminhos do mundo saem do aeroporto para se encontrarem com os seus homólogos! Dispondo de um nahr na porta ao lado, com comerciantes que até já me entendem, não ia há muito aos dois supermercados da terra. Fui lá há dias, passeei-me à procura de novidades e encontrei duas de monta. Uma diz respeito à prateleira dos vinhos que duplicou de tamanho. Onde havia 4 ou 5 qualidades de vinhos de qualidade média/baixa há agora grande variedade de óptmos vinhos portugueses. Caríssimos, claro. Deu-me que pensar, até me ter lembrado da abertura de uma certa Embaixada. Estava explicado. A outra novidade foi bem mais interessante. Encontrei este vinagre de lima que, para além de ser made in Guiné-Bissau, tem este rótulo lindíssimo. Há tão poucos produtos transformados no país que esta descoberta foi um sinal de esperança de que estamos todos bem precisados. Ganhei o dia!

12 março 2009

Mercado Central

(Esta mensagem foi escrita 3 dias antes dos assassinatos do PR e do CEMGFA).

Bissau é uma cidade à minha escala. Isso dá-lhe um ambiente familiar, de quintal de casa de férias, onde nada de muito entusiasmante se passa mas onde os perigos não são também dos maiores. É curioso isto, se se pensar que a instabilidade política está sempre à espreita.

O Mercado Central é um exemplo disso. Nada tem de muito interessante e é a sua pequena dimensão, bem no centro da cidade, que lhe confere importância. Ou conferia porque há alguns anos acordei com a notícia de que o Mercado Central tinha ardido durante a noite.

Desaparecido o último fumo, secas as lágrimas de quem tinha perdido toda a mercadoria (sobretudo castanha de caju e artesanato) o assunto resolveu-se da forma mais simples: os vendedores passaram do interior para o passeio em frente e lá improvisaram as necessárias bancas. Uma grande bagunça invadiu a rua mas não é isso próprio de todas as ruas à volta de mercados?

Passados os anos, tudo se mantém tal e qual. Chegou-se a falar que Portugal pagaria a reabilitação mas afinal há dias soube que vai ser o Banco Africano de Desenvolvimento o financiador. Alegrei-me até ontem, quando me contaram que está prevista a construção de lojas sobre o mercado e que o edifício terá quatro andares. Irá então virar Centro Comercial como este?

Todo o centro de Bissau vai ser irremediavelmente afectado por um crime urbanístico deste calibre. Para a desgraça ser completa só ficará a faltar arrancarem as mangueiras da zona (algumas já o foram).

Já não me bastava a raiva com o que vejo fazer em Lisboa. Agora tenho duas cidades para me fazerem sofrer.

11 março 2009

Esperança

Enterra-se os mortos, cuida-se dos feridos. Os guineenses estão todos um pouco feridos pelo que o nosso trabalho é agora ainda mais importante. E para crise global, esperança global. Também aqui. CADOGO – Diminutivo de Carlos Gomes Júnior, Primeiro Ministro da Guiné-Bissau, eleito com maioria absoluta, em Novembro de 2008.

08 março 2009

Aziz

É meu vizinho pois trabalha na mercearia mesmo ao lado do meu gabinete, no centro de Bissau. A nossa relação faz-se de chegadas e partidas e também de comércio pois, desde que a loja abriu, abasteço-me nela. A ida à rua do mercado, que tão importante era para mim quando estava de passagem, passou a ser demasiado pesada, enquanto residente. Abrir a porta do carro já é um problema, tantos são os vendedores a exibirem os produtos e a chamarem pelo meu nome.
O Aziz é pois uma pessoa importante no meu dia-a-dia. Só que o começo da nossa relação não foi fácil.
Ele é mauritano, recém-chegado a Bissau quando a loja mudou de dono e ele foi contratado. Não falava uma palavra de português, como é natural, e começou a aprender crioulo, como é natural. Como os clientes são quase exclusivamente professores portugueses, achei que devia mostrar as vantagens da aprendizagem do português. Usei os argumentos habituais, com muitos gestos para ajudar. Como se defende tal causa exactamente na língua que se quer que ele venha a conhecer um dia?
A reacção foi péssima e disse-me que falava francês e que eu devia aprender também para falar com ele. Expliquei-lhe que sabia falar francês e que o fazia quando ia a França ou ao Senegal. Na Guiné-Bissau falava a língua oficial.
O clima ficou mau porque é difícil que fique bom quando as pessoas se zangam e não falam a mesma língua. Decidi que não fazia lá mais compras. Mas o Aziz está sempre à porta e no dia seguinte tive que dar os bons dias e à tarde tive que me despedir. A situação não era propícia a declarações de guerra e passados uns dias comprei lá os únicos ovos em que confio.
O Aziz foi aprendendo um pouco, embora não se ande a esforçar muito, e agora já conversamos. Bom, conversar … quase! Sorrimos é muito, mas já em português.

06 março 2009

Mangueiras

Mangueira em flor fotografada por Sofia Fernandes
Soube há poucos dias aqui que as árvores têm uma vida anterior, o que certamente explica a sua força e o seu mistério.
Elas têm uma tal carga que, em 1949, Karl Koch criou o seu Teste da Árvore, muito em moda nos anos 60 e que fez as delícias da classe nascente dos psicólogos portugueses.
“Desenhe uma árvore …” o que faz de imediato pensar em “Dessine-moi un mouton …”. Quando me foi feito o pedido, no fim da adolescência, desenhei-a frondosa e, tal como me fora indicado, não era uma árvore concreta. Julgava eu.
Ao chegar a primeira vez a Bissau vi a minha árvore por todo o lado, repetida ao longo dos passeios. Ao longo e não nos passeios porque as árvores em Bissau têm honras de asfalto, quando ainda resta algum.

05 março 2009

de Bissau (2)

Que outro país tem a capacidade de, em plena adversidade, serenamente continuar em frente, com o mesmo sorriso? Lá estava o Juvenal como sempre "Lava carro?", "Jornais?" Hoje, como me viu carregar manuais, ajudou prontamente e acrescentou "Manual?" Em que classe andas, Juvenal? 8ª E tu Michel (Platini)? 5ª classe E os professores têm manual? Não Vamos ver, sim? Próxima semana trago. Não lava carro? Não, hoje não. E lá foram. Arranquei, a porta de trás mal fechada. Parei e lá veio o Juvenal a correr, rua fora, para a fechar. É assim Bissau. É assim, de novo, Bissau. A vida continua, com tristeza.

03 março 2009

de Bissau

Pedem-me que diga como está isto e agora que tenho um blog espera-se isso de mim. Pois estou bem e está tudo mal, muito mal. Sente-se nesta cidade uma enorme tristeza. Os guineenses estão tristes e cansados. Nesta noite terrível houve fantasmas de 98 que saltaram para cena. Houve medo nos bairros de Bissau. Lá está-se vulnerável pois não há grossas paredes para proteger nem que seja do estrondo das bombas. Está-se rente ao chão ... à mercê. Para além do medo há vergonha. Vergonha de terem um país que só é notícia pelas piores razões (como se diz em linguagem de noticiário). Um país onde se matam os dirigentes políticos e onde nunca se sabe quem o fez. E não há nada mais triste do que ver os guineenses com vergonha. Quanto aos acontecimentos, depois de uma segunda-feira de reclusão, hoje fui tentar trabalhar e tive que fugir para casa porque havia confusão no Bandim. Primeiro constou que sem tiros, logo a seguir já os havia. Vim por atalhos porque a polícia tinha cortado o trânsito na Chapa. Passei por bairros e pensei "Tenho que fotografar isto para o blog" e senti-me culpada por esse olhar de repórter de meia-tigela. Impossível fotografar o que quer que seja ou quem quer que seja. A polícia de Bissau não deixa e a minha também não.