Alô, alô Bissau!
Bilhete comprado, Bissau à vista.
Até lá.
Nascida e criada em Lisboa, vivi em Bissau. Gosto dessa terra onde me sinto em casa. Vou tentar mostrar porquê, aos poucos, para que conste.
Farta de falar e ouvir falar do tempo, bastou uma réstea de sol para pensar que o terrível inverno tinha acabado. Parti para o Chiado bem cedo, direita ao Quiosque do Refresco do Largo Camões onde agora tenho um motivo de sobra para o visitar. Bica (boa, por sinal, apesar do copo de papel), empada de galinha. Desci para a Rua da Conceição que ainda trato, tal como a minha mãe fazia, por Rua dos Retroseiros, para comprar um acessório para a minha velhinha Singer e constatar mais uma vez que a variedade de fios de tricot é pouca em Portugal, apesar do renascimento dos crafts, um pouco por todo o lado.
De seguida fui visitar a Rua dos Bacalhoeiros onde a Conserveira de Lisboa se transformou em loja de culto. Lá comprei conservas de sardinha e também de anchovas, enquanto admirava pelo canto do olho uma senhora que em secretária própria se dedicava a montar as caixas de cartão e a embalar nelas as latas de peixe. A loja é pequena mas é linda, literalmente forrada de conservas, do chão ao tecto. Em frente ainda passei por uma antiga loja de cordas e outros materiais de embalagem, bem de acordo com a tradição da rua.
A caminho do almoço, comprei a Wall Paper de Março e instalei-me na Adega das Mercês onde comi as habituais pataniscas com arroz de grelos. O ambiente é simpático, sinto-me lá bem tratada desde sempre e estou grata aos donos por, apesar da crise, terem sabido conservar o ambiente e a ementa próprios dos restaurantes do Bairro Alto, onde almocei diariamente durante quase vinte anos.
Passagem pela Bertrand e visita a uma merceeria de um guineense, vizinha da Igreja de S. Domingos, onde descobri manteiga de amendoim, óleo de palma e produtos para o cabelo, como é de regra.
Claro que o sol desaparecera há muito, não fosse eu pensar que me encontrava a passear pelo mercado do Bandim.
Fez há dias um ano que iniciei este blog. Acabo de reler o primeiro post e lembro-me bem de como foi emocionante publicá-lo. Nem tem fotografias por ainda não saber colocá-las e ter querido acabar depressa com a fase de preparação que se eternizava, pondo-me um pouco ansiosa.
Durante seis meses ele foi muito importante pois fui-me entusiasmando com uma nova descoberta que se revelava muito mais divertida do que previra. Para além disso, preencheu-me os serões pouco animados de Bissau. Foi emocionante ver aumentar o número de visitas e sobretudo ver nascer essas relações tão especiais que são as da blogosfera. Algumas vão-se tecendo não se sabe bem porquê, enquanto que noutros casos as afinidades são por demais evidentes. E um dia surpreendemo-nos a pensar nessas pessoas como se de amigos se tratasse.
Regressada a Portugal, fui tomada por uma fase de reinstalação que me fez perder o fio à meada e me trouxe inseguranças várias. Será que a minha vidinha lisboeta justifica que se escreva sobre ela? Será que o nome do blog ainda faz sentido? Será que tudo isto interessa a alguém?
Mas continuo a gostar de me sentir parte desta rede de escrita – fotos - publicação - visitas – comentários – respostas a estes – nova escrita, etc.. Portanto, um ano depois, de novo insegura, vou mesmo, mais uma vez, partir.
Até breve e obrigada a todos os que têm insistido em me visitar, apesar de pouco haver para ser visitado.

Tem sido surpreendente este descobrir que pertenço um pouco a uma terra onde não nasci, onde nunca vivi e onde não fui durante 30 anos. Voltei agora e lá tenho tratado de assuntos bem prosaicos. São esses que também sustentam os laços.
A pouco e pouco voltam pontas de memórias, sempre muito frias, à volta da camilha, ou muito quentes, em frente a um castanheiro gigante, coberto de ouriços, que entrava pela janela da cozinha. Claro que há também recordações de iguarias, algumas bem locais, mas isso será assunto para outros posts.
Época de muitos projectos, cadernos novros, livros forrados de fresco. A idade foi mudando mas o outono continuou a ser isso mesmo - tempo de preparação. Este ano tem sido também tempo de recuperação. Depois de vários anos por outras paragens, por outras casas de que só em parte me apoderei, a relação com a decididamente minha está um pouco abalada.
Assim, tem sido tempo de organização, arrumação e depuração. Há que reduzir, embora saiba que o espaço ganho vai ser rapidamente ocupado pelo produto da minha actividade de respigadora.
A casa vai-se tornando cada vez mais um puzzle de bocadinhos de outras casas, umas que me viram crescer, outras de gentes com histórias que jamais conheci. Os passeios da cidade estão sempre ali. O que seria da minha casa se não houvesse quase sempre ao lado um "Oh mãe, isso não!" ...
Estes senhores foram apanhados há talvez 7 anos na Elias Garcia, numa manhã de sábado cheia de sol. Estão em frente à minha porta de entrada e, para além de fazerem sorrir fornecedores, têm tido um papel importante na evolução dos netos. Começam por ter muito medo deles e pouco a pouco vão-os enfrentando com crescente à vontade. Aos 18 meses o assunto está resolvido.
Quanto a mim, acho-os muito úteis, para além de me continuarem a fazer sorrir, após tantos anos. Nestes dias têm-me ajudado a põr um pouco de ordem por estes lados, enquanto os vou entretendo com um peixe das ilhas Bijagós.
Aconteceu! Comprei uma máquina fotográfica. Agora terei que ler as instruções, operação que detesto e que adio sempre até nunca. Entretanto vou aprendendo o mínimo, aqui e ali à medida das oportunidades e dos mais disciplinados do que eu.
Vão-me fazer falta uns certos amigos que partiram há semanas para Bissau e que deixei de ter ali, mesmo à mão, prontos a resolverem qualquer dúvida tecnológica que surgisse.
Adoro a minha máquina embora isso não impeça que não tenha ainda conseguido colocar uma única fotografia neste blog. É essa uma das razões desta lamentável paragem. As outras têm sido problemas informáticos em cascata e uma certa aflição quando ao interesse deste blog, feito a partir de Lisboa. Textos não faltam mas será que se justificam?
Obrigada de qualquer maneira a todos aqueles que pacientemente têm esperado pelo fim do bloqueio e até me têm repetidamente encorajado. Esperança! Isto há-de ter um fim.