05 novembro 2010

A casa (19) - a fogueira

Design de Dirk Wynants

Claro que eu gostava de ter na casa tudo, mas mesmo tudo aquilo que nunca tive nem terei em Lisboa: a luz do dia a entrar por uma janela da casa de banho, um quintal com um limoeiro, uma buganvília rosa fúchia a espreitar pela porta da cozinha.

Mas mais que tudo, eu gostava de ter uma lareira. Bom, já me contentava com uma salamandra. Não vai poder ser pois furar o chão da açoteia colocaria problemas de isolamento e problemas só quero os que não se prevêem.

Portanto, encontrei esta solução que fará a minha felicidade em dias sem chuva. Terei é que prescindir do cavalo, dada a largura da escada.

02 novembro 2010

A casa (18) - o projecto

Quem diz projecto diz arquitecto, embora saiba bem que não é sempre assim. Neste caso arquitecta. Chama-se Cristina Salvador e faz parte deste filme desde o início que é como quem diz desde a compra. Melhor: está neste filme desde o passado de ilha na tal casa que o mar levou para não mais trazer.

A futura casa foi nascendo aos poucos nas nossas cabeças. Passou por diferentes soluções enquanto eu ia e vinha entre Bissau e Lisboa mas a solução final esperou pelo meu definitivo regresso. Face ao tamanho, pensou-se primeiro em substituir o casinhoto verdadeiramente inabitável por um quarto com casa de banho associada. Punham-se problemas de estrutura, de custos. Ainda por ciima o espaço exterior passaria de açoteia a simples varanda e a casa continuaria a ser claramente insuficiente para nos albergar a todos durante as férias.

A solução final foi-me colocada e aceite de imediato. A casa ficou reduzida a um T0 mas um super T0 (acho eu´!) e a açoteia, salva no seu todo, será no verão o coração da casa. Lá se irá repousar, comer e cozinhar também. Salvou-se o lado emocionante do filme, desde que se garanta a privacidade do local. Há dias em que a imagem que evoco é de um minúsculo rectângulo separado de muitos outros por muros baixíssimos´. mas depois, noutros dias, vejo toldos, esteiras, sombras e almofadas de tecidos africanos, comigo refastelada nelas.

A leitura do projecto não é coisa sempre evidente. Há dias em que vejo com dificuldade aquela parede que separa a casa de banho do frigorífico. Onde fica o tal vidro que vai deixar passar alguma luz? Para que lado fica a prateleira?

"Espera aí, já te explico e já vais ver" O que seria de mim sem ela? A C. e eu somos as protagonistas deste filme e a data da estreia será anunciada aqui, claro está.

01 novembro 2010

A casa (17) - dona de obra

Fotos de Cristina Salvador

"Dono de obra - Entidade responsável pela encomenda das operações e pela celebração do respectivo contrato de adjudicação, coincidindo, por regra, com a entidade que detém a propriedade do bem ou infra-estrutura ou adquire o serviço financiado".

Sou eu e assim continuarei a ser durante os próximos meses, antes de quase tudo o resto. Quando a obra se passa a 300km há sempre alguma inquietação como pano de fundo. O que estará a fazer o sr. Francisco? Já terá levantado o tal muro? Apetece-me telefonar todos os dias mas controlo-me. Como respeitar o seu espaço/tempo de trabalho correndo o mínimo risco de deslize? Está aqui o segredo da relação.

Resta portanto a sensação permanente de que devia lá estar. Preparo-me para a próxima visita como se de uma curta viagem de férias se tratasse. Só que os guias são substituídos pelo projecto de arquitectura que de tanto ser dobrado e desdobrado ameaça ruir.

18 outubro 2010

Outras obras

Em vez de casas a ilha tem agora gruas que trabalham para abrir uma nova barra. Parece que a existente que separa a ilha da de Tavira está açoreada e a nova vai ser cortada um pouco ao lado da abertura feita pelo mar no último inverno.

Há em terra, no cais de embarque, um painel com a localização dos trabalhos, com um pedido de desculpas pelo incómodo e pouco mais. Sobre as razões da opção, nem uma palavra. Mais uma vez considera-se que o cidadão comum não merece saber por que lhe vão cortar a ilha ao meio, mesmo ao lado do ancoradoro onde chega e donde parte. Por que razão vão tornar impossíveis os longos passeios para nascente.

Há seguramente boas razões para tal mas por que não mereço ser informada?

16 outubro 2010

Tempos modernos

Este espectáculo um bocado deprimente vai ter o seu fim amanhã quando for, de saco na mão, à estação dos correios para enviar estes cabos para a ABRAÇO.

Se este desperdício aconteceu em casa de uma sexagenária não muito consumista imagino o que irá por esse mundo "desenvolvido" fora.

Importante: não vai dar trabalho ou despesa. Os correios fornecem a caixa, marca-se com uma cruz o destinatário da nossa escolha e eles enviam grátis.

10 outubro 2010

A casa (16) - o passado de ilha

A casa não surgiu aqui por acaso. Houve um passado de algumas décadas em que a ilha era o paraíso anual. Essa sensação de nos aproveitarmos do paraíso teve sempre o seu sabor a pecado. Apesar da nossa postura correcta e consciente de preservação do ambiente, tínhamos bem a sensação de que havia naquelas férias uma grande contradição. Aquele espaço era público e não era justificável que desfrutássemos dele de uma forma tão privada. Ainda por cima tirando daí um prazer tão perfeito.

Ao fim da tarde o último barco levava os últimos banhistas para terra e a ilha ficava a ser um espaço só nosso. Nosso e de mais uma dúzia de pessoas que desapareciam dos nossos olhos. A casa na areia, o fogo que se acendia para assar as sardinhas enquanto as crianças tomavam banho no terraço, os pés no mar ao luar, as conversas intermináveis na areia ou à volta da mesa (o que era igual) ...

Depois, de manhã, com todos ainda a dormir, partia para terra no primeiro barco, só eu e o marinheiro. Compras no mercado, torrada, Público e café no largo, quando as cadeiras ainda não estavam todas nos seus sítios.

Tudo isso acabou, outras férias nasceram, agora que o mar fez justiça e a Câmara Municipal, sem alarde, com a aparente aceitação de todos, completou a tarefa.

A ilha já não tem casas. Está tudo certo. É só pena que o problema tenha sido resolvido no local em que quase não o era. Em contrapartida, na outra ponta que não se avista, o pesadelo é imenso.

Afinal de contas, o mesmo que alastrou por todo o Algarve.

04 outubro 2010

100 anos

Impossível não pensar numa época em que os murais nasciam a toda a hora nas paredes da cidade, ilustrando de imediato os acontecimentos. Saía-se de manhã e lá estava mais um. Se exceptuarmos aqueles em que operários apareciam com caras de criminosos (nunca percebi qual a intenção), os murais em Lisboa eram muito festivos e alguns mesmo lindíssimos.

Tudo muito diferente desta vaga de grafitis que surgem mal um edifício é restaurado e que fazem nascer em mim ondas de desejos de repressão e vingança.